Wikileaks

10 12 2010

Contra o WikiLeaks

Marcelo Carneiro da Cunha
De São Paulo

 


Julian Assange, fundador do site WikiLeaks (Foto: AP)

Estimados leitores e leitoras, que semana! No que realmente importa, enquanto o Gremão entrava para a Libertadores, graças ao bravo e confiável Goiás, um conhecido meu, que vamos chamar de Mister X, tinha toda a sua correspondência digamos, humm, íntima, capturada pela sua estimada noiva, e era auto-destruído em um processo bastante ruinoso, para quem, como Mister X, tinha amor pelas suas coisinhas e pela casa na praia.

Enquanto assisto a derrocada de meu bom Mr. X, penso no quanto os homens são ingênuos, como foi o governo americano, acreditando que as suas verdadezinhas podem estar a salvo enquanto lá fora existem o WikiLeaks e noivas, dispostos a obter cada fiapo de informação que eles, os homens, possam achar que mantém em segredo de todos, exceto o psicanalista e o padre confessor, quem sabe. Não existe isso, estimados leitores. Não existe canto, gaveta, caixa posta, MSN, skype, onde você possa manter uma aquecida troca de ideias sobre o que fazer com os legumes da sua geladeira e uma sirigaita qualquer que gosta de você enquanto amigo, sem que o mundo, ou pelo menos a parte do mundo que realmente se interessa pelo que você faz ou pensa, fique sabendo.

A tal sagrada inviolabilidade da correspondência é apenas algo em que os homens se acostumaram a acreditar, assim como convencem a si mesmos de que são grandes amantes, mesmo suspeitando que a moça do outro lado esteja doida pra que esse negócio acabe logo e ela possa ver Passione tomando sorvete Häsgen-Dazs que ela viu na sua geladeira.

Não importa o que você pense que somente você e a vizinha do 406 saibam, estimado leitor. Não importa o quanto você acredite que a sua senha é mais inviolável do que os cofres do governo do DF. Não importa que você esconda o que quer que seja na sua gaveta de meias e afins. Não importa o quanto você esconda seus pensamentos até de você mesmo. De alguma maneira que nós, homens e patos históricos sequer imaginamos, sua noiva, esposa, namorada, arrumadeira, cada uma delas uma atentíssima Big Sister, sabe. E, isso, como descobriu Mr. X e milhares de outros patinhos ao longo dos séculos, custa muito, muito caro. Para vocês e sua pobre crença na privacidade, o que eu tenho a dizer é “quack!”

Pois, pato filosófico que me tornei depois de ler muito Sartre na minha lagoazinha, eu sou contra. Sou contra o acesso indiscriminado aos pequenos segredos que tornam a vida possível. Penso, na medida em que patos pensem, que a vida é melhor quando os nossos pensamentos, ou pelo menos a nossa gaveta de meias, tenham lá o seu grau de privacidade. Acessar alguma informação individual a traz para a luz, talvez, mas por meios nada corretos, e nem sempre é na luz que se vê melhor. Acontecimentos que fazem todo o sentido, ou pelo menos não trazem maldade em si, podem facilmente, diante dos olhos menos informados ou menos bem-intencionados de quem olha enquanto você não vê, se tornarem tão dramáticos quanto uma troca de mensagens secretas entre Kim Jung-Il com dor de dentes e o presidente da China.

A vida requer o que os alemães, mais filosóficos e bem menos patos do que eu, chamam de Lebenslüge, as mentirinhas e omissões que tornam a vida possível. Assim, não me junto ao coro dos que acham que o Julian Assange o sujeito mais legal desde Prometeu, mesmo que ache que os abutres estejam se atirando com um furor exagerado rumo ao fígado dele. Estimados leitores, a verdade é um dos mais complicados bens sobre o planeta. Uma verdade fora do seu habitat provoca tragédias com a mesma facilidade de um hospital que guarde soro junto com vaselina e mate meninas inocentes assim, com um sopro.

Revelar que a Inglaterra fez sim um acordo com a Líbia para libertar o sujeito que colocou uma bomba no avião de Lockerbie, é uma informação útil e relevante. Revelar que a China quer abandonar a Coréia do Norte pode provocar uma guerra nuclear e matar milhões, milhões de pessoas, e eu sei lá porque, sinto uma certa dificuldade na hora de admirar genocídios.

O bom jornalismo vai atrás de verdades e o melhor jornalismo as encontra, ao mesmo tempo em que as confirma, ou não publica. Nessa semana tivemos uma demonstração disso nas reportagens do Estadão sobre o inacreditável Gim Argello que ocupava um cargo público e lidava com verbas públicas. Existem informações que não são da mesma natureza, e saber preservá-las também é missão do bom jornalismo. Se, juntamente com o WikiLeaks, morrerem as declarações em off, que o jornalista promete não divulgar, acaba boa parte do jornalismo, ou não?

Uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa, e saber diferenciar entre elas é o que separa a vida que vale a pena de uma coisa provavelmente muito chata, ou perigosa. Eu tendo a achar que os segredos podem ser revelados, mas por processos mais completos do que simplesmente roubar uma informação e jogá-la no ventilador. Mas, patos são assim mesmo, emplumados e um tanto ingênuos. Talvez por isso, em eventuais encontros com chumbo, quem invariavelmente leva a pior, somos nós, os patinhos, e não o chumbo grosso de quem atira sem saber a razão, sem saber bem ao certo para onde aquilo tudo vai, ou o que vai causar, no final das contas.

Extraído do www.terra.com.br

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