Eleitor

19 09 2010

Pacífico Bromélio é um pacato funcionário público aposentado, que vagava pela cidade com olhar mortiço e aspecto mal cuidado, desde que sua senhora, a virtuosa Dona Imelda, fugiu com um vendedor de churrasquinho que conhecera na porta do circo. Além da paz, a virtuosa Dona Imelda levou também do pobre Pacífico a poupança de toda uma vida, depositada na caixa econômica. Infeliz e endividado, ele passou a morar na companhia de um gato de nome Cristiano Ronaldo, que a fugitiva preferiu deixar sob seus cuidados.
Diz o ditado popular, que depois da tempestade sempre virá a bonança. Pois não é que em um dos seus solitários passeios, Pacífico Bromélio enfim deu-se conta dos incontáveis painéis, posters que atualmente dividem espaço uns com os outros, exibindo as fotografias dos candidatos às próximas eleições? Seu campo de visão estava ocupado por simpáticos sorrisos juvenis e olhares sinceros, que foram de pronto, enternecendo o seu sofrido coração. Uma pessoa insensível, talvez nem se tocasse, mas não ele, o bom e velho Pacífico. Sucumbiu docemente aos apelos emanados daquela profusão de rostos, todos mal saídos da puberdade, à prometer esforços estafantes em prol da felicidade do povo, caso sejam por ele eleitos.
Percebeu Pacífico que, se pelo menos um daqueles candidatos for eleito, qualquer que seja ele ou ela, a educação, a saúde e a segurança jamais voltarão a ser os grandes e graves problemas que hoje afligem a coletividade.
Pela primeira vez em sua triste vida, Pacifico Bromélio da Silva sentiu-se verdadeiramente amado. Percebeu que aqueles paladinos, homens e mulheres especialíssimos, estão abdicando dos seus interesses particulares e da convivência familiar, em nome da causa maior do bem estar comum.
Enquanto continuava seu lento passeio pelas ruas amargas de sua vida, nosso amigo, agora feliz, pôs-se a pensar que nenhum dinheiro neste mundo, haveria de substituir a alegria de se saber amado pela laboriosa classe política da nossa pátria.
Chegou em sua casa já no começo da noite, com lágrimas mornas a lhe aguar o rosto. Agachou-se para beijar Cristiano Ronaldo, que já se preparava para ganhar ruas e muros do bairro, em busca de felinas orgias.
Mais tarde, jogado na velha rede de solteiro, balbuciou um monólogo perdoando a aloprada Dona Inelda e desejou-se boa-noite. Sou um eleitor! pensou com forte convicção. Não muito longe dalí, os grunhidos eróticos de Cristiano Ronaldo denunciavam um tórrido encontro, com uma gata vadia qualquer. A imensa lua cheia abençoava a cidade com sua luz prateada.

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