Democracia

12 09 2010

O uso eleitoral de um velho problema de vazamento de bancos de dados oficiais (vide reportagem do SBT, no ano passado, com o governador de São Paulo, que fala tranquilamente sobre o assunto: http://www.youtube.com/watch?v=pIKDfaN5K5A&feature=player_embedded) tornou-se por demais ostensivo, a ponto de muitos brasileiros desconfiarem da acusação, ainda que condenando o crime cometido por quadrilhas contra milhares de contribuintes. A desconfiança sobre a tese de crime eleitoral levantada por oposicionistas foi comprovada pelas últimas pesquisas eleitorais, que não registram abalos na aprovação da candidatura oficial. Crescem também as queixas contra certos segmentos da grande mídia, acusados de ajudar a montar esse jogo, comprometendo a própria credibilidade.

Outra atitude estranha é considerar que a democracia corre risco, se a manifestação da maioria do eleitorado for muito expressiva. Ora, isso é uma contradição. Quer dizer que se a oposição ao futuro governo for diminuta, por vontade expressiva dos eleitores, isso é dar ensejo ao autoritarismo? E o que dizer dos 44 anos, seguidos, de governo do Partido Social Democrata, na Suécia, o PT de lá, e dos 54 anos dos liberal-democratas no Japão? – indagou, esta semana, na “Folha de S.Paulo”, o cientista político Alberto Carlos Almeida. Nenhum dos dois países virou ditadura. A Suécia, na verdade, graças ao longo reinado dos social-democratas, transformou-se no país mais socialmente equilibrado da Europa. Pelo jeito, fica confirmada a tese de que o maior medo de certos segmentos da elite brasileira continua sendo a democracia plena.

No tempo do governo João Goulart, o alarido desses “democratas condicionais” era sobre a “República Sindicalista” que estaria prestes a ser implantada. Agora, é a “mexicanização,” pelo fato de o eleitorado querer a continuidade. Parece que ainda estamos no tempo da Guerra Fria. Essa intolerância levou esses setores a impedir, até 1988, a participação legal do Partido Comunista, na vida política do País, e com isso prejudicaram a consolidação das instituições democráticas brasileiras ao longo da História republicana. Ora, só existe democracia onde há direito de expressão para todas as correntes políticas, deixando ao eleitor o juízo sobre elas.

Não aceitar a pluralidade ideológica da representação política, como se fez no Brasil, já era um anacronismo, na época da Guerra Fria. O grande temor em relação à presença dos comunistas, no parlamento brasileiro, era de que eles tentassem aprovar a reforma agrária e promovessem mudanças nas leis trabalhistas em favor dos trabalhadores, até então não representados. O Congresso era monopolizado por fazendeiros, empresários e bacharéis. No único momento em que os comunistas conseguiram se legalizar e eleger uma bancada, arranjou-se um pretexto para cassar seus mandatos e atirá-los na ilegalidade, inaugurando o regime democrático capenga da Constituição de 1946. Já, na Europa Ocidental, nessa época, os comunistas concorriam livremente às eleições e deram grande contribuição (junto com os social-democratas) ao aperfeiçoamento das leis trabalhistas, à remoção das desigualdades mais gritantes e à promoção da cultura. Ou seja, os comunistas europeus, ao serem incluídos na vida política institucional, renunciaram à revolução e escolheram o caminho democrático das urnas para disputar o poder.

Democracia, só para os que pensam como nós, não é democracia. Por isso não cabe a continuação de uma posição preconceituosa e anacrônica contra a esquerda, no Brasil, sobretudo, hoje, quando a imensa maioria desse segmento político brasileiro rompeu com a tese leninista-stalinista sobre a organização do Estado. Contudo, os cristãos estão preocupados (com razão) com a votação para o Congresso, para evitar o reforço de teses como o aborto e o casamento gay. Mas isso não são só teses de segmentos da esquerda, mas também dos liberais, em vários países do Ocidente. Vão tentar votar em candidatos que não apoiem essas posições. E eles existem, tanto na esquerda, como na direita, como no centro. Devem defender que qualquer uma dessas duas questões só sejam decididas por plebiscito, nunca pelo Congresso, apenas. Mesmo porque os candidatos ao Parlamento não estão discutindo isso com os eleitores. É preciso que cada um indague do seu candidato como ele vai votar nessas questões.

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