No principio era o verbo

29 07 2010

No princípio era o Verbo. E o Verbo tornou-se um aglomerado de carbono pensante, que depois de viver num paraíso onde a vida era um tédio, pronunciou, isto é, enunciou pela primeira vez a palavra, o discurso. E daí nasceu a linguagem, que nomeou todas as coisas viventes e não viventes da natureza. E também criou o monoteísmo.
Do enunciado mítico, ao enunciado lógico, a invenção do sentido. E desse dia em diante o sujeito foi inventado, e com ele a verdade e a mentira, o certo e o errado, o bem e o mal, a certeza e o erro, a ignorância e a sabedoria. E o homem inventou a escola.
E o homem criou os deuses, a moral, a ética, o discurso jurídico, político e as instituições. Inventou a lucidez e a loucura, isto é, sanidade e a demência, e a partir delas todos os tipos de comportamentos desviantes. Da tara à pedofilia, da psicopatia à esquizofrenia, além das manias, da paranóia, a síndrome do pânico, e assim criou sua pior criatura, o medo. E para tentar amenizar o caos, inventou psiquiatria a farmacologia alopática, os hospícios e o sistema prisional.
Não satisfeito, o homem inventou a tecnologia. Da roda aos moinhos de vento, das máquinas de tear às máquinas inteligentes, do animal como veiculo de transporte, o automóvel, o avião, o trem bala e a produção em série. Houve uma saturação, e o homem inventou os códigos de trânsito. E o homem tornou-se refém e prisioneiro de sua própria criação. A tecnologia criou vida própria e submeteu seu criador.
E o homem que no princípio necessitava proteger-se da natureza, agora cria mecanismos para protegê-la dele mesmo. Então o homem inventou o discurso ambiental.
E o homem também inventou a comunicação à distância, desde os sinais de fumaça dos peles-vermelhas, às engenhocas dos caras-pálidas. O telégrafo, o telefone convencional até chegar à comunicação sem fios ou cabos. Inventou a imprensa, que por sua vez criou a fotografia, o cinema e a televisão, o computador, que por sua vez possibilitou a internet. E precisou criar as leis contra crimes virtuais.
E o homem entediado de conquistar todo o planeta, inventou a espaçonave para conquistar o universo. Do Sputnik ao Apolo 11 e a chegada à lua, foi questão de tempo. E o tempo? O tempo é dinheiro. O homem o inventou e agora não sabe mais como fazer para ter tempo, e criou o relógio, o livro de ponto, a catraca eletrônica e atualmente a identificação digital.
E o homem inventou o dinheiro, as letras de câmbios, a caderneta de poupança, os cartões de créditos, os seguros de vida e todos os seus similares, mas para controlar tudo isso o homem inventou o banco. Não esquecendo, os impostos, as dívidas eternas, tais como, água, luz telefone, taxas de condomínio, pedágios, IPVA, IPTU. Mas, para tudo isso funcionar o homem inventou sua maior e mais incontrolável criação, o Estado.
E assim, como nos filmes hollywoodianos, o homem viveu feliz para sempre, até que a morte lhe garanta a paz de espírito que tanto procurou. Lembrando, que não sem antes, adquirir o passaporte final junto a uma grande empresa funerária, para o seu merecido descanso após o sétimo dia da invenção.

Texto de Francisco Carvalho, filósofo. Kirilov2006@terra.com.br em http://www.diariodopovo-pi.com.br

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